Banalidades · Infância · Reflexões · TPM feelings

Censurado

Não sei exatamente porque eu lembrei disso. Eu tava só arrumando minha cama e, do nada, veio na minha cabeça. Tipo epifania, sabe?

Eu aprendi a ler com 3 anos. Minha vó e minha mãe me ensinaram, porque… eu queria. Eu via meus irmãos lendo e queria ler também. Pronto. Virei uma criança de 3 anos que lia (com alguma dificuldade, verdade) tudo o que colocava na sua frente.

E, claro, com 8~9 anos, eu não estava querendo saber de livro com letras grandes e figuras que ocupavam metade da página. Para falar a verdade, eu queria fazer tudo o que um adulto fazia. Talvez seja porque a diferença de idade entre eu e meus irmãos é muito grande e, acho que desde sempre, eu me achava no direito de fazer o que eles podiam fazer.

A biblioteca da minha escola era dividida em prateleiras (ah vá!). E cada prateleira era destinada a uma faixa etária, de modo que os livros para os mais velhos ficavam mais em cima, para que os ‘baixinhos’ (tipo eu) não conseguissem alcançá-los. Em uma parte separada, ficavam as mesinhas, aonde líamos.

Um belo dia, eu decidi que não tinham motivos para que eu não lesse os livros da última prateleira, já que enquanto meus coleguinhas demoravam horas para ler os livros para crianças de 8 anos, eu levava minutos. E lá fui eu, com minha idéia aparentemente brilhante.

Numa tarde, depois do treino de futebol, a bibliotecária não estava em seu costumeiro posto. Tinha ido ao banheiro ou sei lá eu o que. Entrei dentro da biblioteca e, toda cautelosa, fui até onde ficavam os livros. Tentei pular para alcançar a última prateleira, mas foi em vão. Verifiquei mais uma vez se a bibliotecária havia voltado. Nada. Balcão vazio. Corri até as mesinhas e peguei uma cadeira. Olhei novamente para a porta; nada dela. Levei a cadeira até as prateleiras o mais rápido que minha força e minha estatura permitiam. Subi nela e nesse momento… Barulho de porta abrindo. Peguei um livro qualquer, sem olhar o titulo, e pulei da cadeira, fingindo estar sentada escolhendo algum da prateleira mais baixa. A bibliotecária sentou sem olhar para mim.

Entreguei o livro para ela no balcão. Enquanto ela digitava o código para locação no computador, corri meus olhos pela capa do livro e tudo o que me lembro de ler foi censura 14 anos. Torci para que ela não percebesse. E, de fato, não percebeu. Assim, levei o livro para casa.

Não me perguntem o título, o enredo ou o nome da personagem principal. Isso eu apaguei completamente da minha memória.

Tudo o que eu lembro era que tinha uma menina que era apaixonada por um traficante. E, pra agradar a ele (ou algo do tipo), usava drogas. E ficava louca. E quando o dinheiro da mesada acabava, ela se prostituía. E que o menininho que ela era apaixonada foi assassinado. E da droga da descrição do corpo após o crime. Principalmente da droga dessa descrição.

Veja bem, não foi nada legal. Eu fiquei um tanto quanto horrorizada. Óbvio que se eu lesse o livro hoje, a descrição do corpo seria uma das minhas partes preferidas (eu adoro livros descritivos, dica dada).

Me assusta o tempo que eu perdia querendo parecer mais velha, querendo fazer coisa de gente mais velha. Na minha pré-adolescência, eu ia para festinhas de aniversário dos meus priminhos ou jantares dos amigos do meu pai e muitas vezes me recusava a brincar, porque queria conversar com os outros adultos.

E é incrível que depois que a gente cresce, a gente tente recuperar esse tempo e sinta tanta saudades da infância, quando podíamos brincar, nos sujar e sair correndo das pessoas chatas. A verdade é que poderíamos ter feito muito mais de tudo isso. Mas escolhemos adiantar nossas responsabilidades por um motivo totalmente bobo.

Agora, só nos resta aceitar nosssas responsabilidades e curtir e dar alouca no tempo livre, hehe.

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