Cotidiano · Família · Infância · Relacionamentos

Kinder Ovo de cada dia

Hoje, no dia dos pais, o meu pai foi comprar pão fresco na padaria antes mesmo de eu acordar. Quando cheguei na cozinha, ainda de pijama encontrei na mesa, um Kinder Ovo. Meu pai, ouvindo que eu tinha saido do quarto, foi ao meu encontro. Eu o abracei, desejando “feliz dia dos pais” e ele me disse: “O Kinder Ovo é seu. Lembra quando eu te trazia um por dia?”.

E como esquecer, não é? Na época me irritava tanto…

Talvez alguns de vocês se identifiquem com isso, mas meu pai trabalhava em outra cidade quando eu era mais nova. Partia antes de eu acordar e chegava quando eu já tinha ido dormir. E, por causa de sua profissão, trabalhava aos fins de semana em um escritório construído em uma casinha no nosso quintal. Eu tive o que se pode chamar de “pai distante”.

Não que eu ache que aquela fosse sua intenção. Hoje, eu entendo. Em casa, era eu e meus três irmãos. Minha mãe deixou de trabalhar pra cuidar dos três, mais velhos que eu e que diferem um do outro por menos de dois anos de idade. Ele, tinha que sustentar uma família de seis. E, pra isso, trabalhar que nem um camelo.

Eu me lembro o quanto eu odiei quando ele foi promovido. Na foto da posse com a família (carinhosamente apelidada de “A Família Adams” – sintam o nível de nossa beleza), todos sorriam. E eu com a minha clássica cara de “não gostei”, um sorrisinho forçado. Ser promovido significava trabalhar mais.

Quando eu estava com três anos, meu pai não sabia que eu conseguia tomar banho sozinha e que precisava só que pegassem o shampoo e o condicionador pra mim, já que eu não os alcançava. Ele me “ajudou” (mais atrapalhou por causa da falta de prática, coitado) em tudo e eu fiquei todo bravinha. Quando ele não tinha trabalho e me levava pra escola, era aquele clima chato. Não tínhamos sobre o que conversar, o silêncio só não era mais desconfortável do que as poucas palavras trocadas.

Mas, um dia, ele decidiu aposentar. Eu tinha 15 anos na época. Foi ai que eu comecei a assistir futebol e a ler mais.

No fim, quando ele me levava à escola, discutíamos sobre os jogos. Tínhamos briguinhas, por torcermos pra times diferentes. Quando havíamos comentado tudo sobre os jogos da primeira divisão, falávamos sobre os da segunda e até sobre os da terceira. Em casa, as conversas eram sobre os livros que liamos e nossas impressões sobre eles. E aos poucos, indicávamos livros um ao outro, explicando porque achávamos que o outro gostaria. Porque nós finalmente nos conhecíamos.

Foi difícil de entender que aquele Kinder Ovo presente na minha mesinha de cabeceira quando eu acordava significava que meu pai lembrava de mim mesmo quando em outra cidade trabalhando, e não que tentava me comprar pra eu gostar dele. Me arrependo de todas as vezes que pensava como seria bom ter outro pai.

A verdade é que meu pai sempre foi assim, perfeito pra mim.

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